24.8 C
Campo Grande
HomeAgronegócioAcordo Mercosul-UE pode baratear vinhos europeus e ampliar oferta de chocolates premium...

Acordo Mercosul-UE pode baratear vinhos europeus e ampliar oferta de chocolates premium no Brasil

Acordo Mercosul-UE pode baratear vinhos europeus e ampliar oferta de chocolates premium no Brasil
Tetiana Bykovets/Max Tutak/Unplash
O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, aprovado provisoriamente pelos países europeus nesta sexta-feira (9), pode baratear o preço dos vinhos europeus no Brasil e ampliar a variedade de rótulos disponíveis no Brasil no longo prazo, avaliam especialistas.
No caso dos chocolates, a redução do imposto de importação pode ampliar a presença de marcas premium que hoje não estão no mercado brasileiro. Mas isso não significa que elas chegarão ao país com preços acessíveis, diz Roberto Kanter, professor de MBAs da FGV.
O acordo entre os dois blocos ainda não está em vigor. A formalização dos votos da UE ainda depende do envio de confirmações por escrito até as 17h no horário de Bruxelas (13h no Brasil).
Atualmente, os países do Mercosul – bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – pagam uma taxa de 27% para importar vinhos da Europa.
Caso o acordo entre em vigor, essa taxa será zerada entre 8 a 12 anos, a depender do produto, disse o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) ao g1.
Já as importações de chocolate, hoje taxadas em 20%, terão dois prazos: uma parte dos produtos terá tarifa zero em 10 anos e a outra, em 15 anos.
O g1 perguntou ao governo quais tipos de vinhos e chocolates se enquadram em cada um desses prazos de redução tarifária, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
O acordo também prevê tarifa zero para a importação de azeite de oliva da União Europeia. No entanto, desde março deste ano, o governo brasileiro já isentou o produto do imposto de importação.
Por que o vinho europeu pode baratear?
Consumidor brasileiro pode ter acesso a vinhos europeus mais baratos e a mais rótulos, caso acordo entre em vigor.
Lefteris Kallergis/Unplahs
Diferentemente do Brasil, onde a produção de vinho é pequena, a Europa concentra os maiores produtores globais, como Itália, França, Espanha, respectivamente, segundo a International Organisation of Vine and Wine (OIV).
É por isso que, no continente, é possível encontrar “vinhos muito bons por dois, três, quatro euros”, diz Kanter, da FGV.
No entanto, o que desestimula a compra pelo Brasil atualmente é justamente a alta taxa de importação.
“Com as tarifas atuais, é melhor você importar um vinho de 15 euros do que de cinco. Por quê? Porque a tarifa do imposto acaba igualando todos eles em uma faixa semelhante de preço e o cliente brasileiro que compra vinho da Europa já está disposto a pagar mais caro por ele”, diz Kanter.
Ele afirma, no entanto, que a redução gradual da taxa vai estimular as empresas brasileiras a diversificarem as suas compras e a apostar em vinhos europeus de menor preço.
“Eu acredito que o consumidor brasileiro vai ser beneficiado. Ele vai passar a ter acesso a uma oferta muito maior de vinhos de qualidade média, a preços extremamente competitivos, muito mais do que você encontra hoje no mercado”, ressalta.
Kanter destaca que essa diminuição de preço não é imediata e deve acontecer gradualmente, após o acordo entrar em vigor.
“Hoje, para você ter um preço competitivo, você compra do Chile ou da Argentina – principalmente do Chile porque o peso argentino subiu de novo”, comenta o professor.
Esses dois países sul-americanos têm um volume de produção de vinho bem maior que o do Brasil. E é por isso que os rótulos chilenos e argentinos são, em geral, mais em conta que os nacionais no mercado brasileiro, diz Kanter.
Com o tempo, ele acredita que os vinhos europeus sigam a mesma tendência, no Brasil, observada hoje nos rótulos chilenos e argentinos.
O economista Marcos Troyjo, que liderou as negociações do acordo entre 2019 e 2020, afirma que, como a tarifa levará anos para ser zerada, os produtores de vinho do Brasil — hoje concentrados no Rio Grande do Sul — terão tempo para se adaptar.
“Alguém pode dizer: ‘poxa, mas vai ter muita competição do vinho europeu’. Mas na realidade, quando você tem uma um acordo desse, os consumidores passam a tomar mais vinho, você aumenta o número de fornecedores de garrafas, de rótulos, de rolhas”, diz Troyjo.
“Aumenta também o número de vagas de emprego para garçons, para somelliers, ou seja, você dá um choque de expansão setorial”, completou.
Mais chocolates premium, mas não a preços baixos
No caso dos chocolates, a redução do imposto de importação pode ampliar a presença de marcas premium que hoje não estão no mercado brasileiro.
Tetiana Bykovets/Unplash
Diferentemente do setor de vinhos, o Brasil já conta com uma forte produção de chocolate. O país tem uma indústria já bastante diversificada, formada por empresas nacionais e estrangeiras, que conseguem atender o consumidor em diferentes faixas de preço.
No Brasil, o consumidor pode encontrar desde “uma Lacta, um Garoto” até “uma Nugali ou Dengo”, exemplifica Kanter, da FGV.
Ele cita a Nestlé, uma marca suíça que está há anos no Brasil e que já produz chocolates a preços populares. “Neste caso, o acordo não traz benefício algum. [Porque] O cacau é produzido aqui, os impostos são daqui”.
Para ele, os principais beneficiados serão os importadores. “Eles vão ganhar mais dinheiro. Com a tarifa menor, terão mais margem de lucro e isso vai permitir aumentar os canais de distribuição”, diz Kanter.
“Ou seja, marcas que hoje se concentram nas grandes capitais, como a Lindt [que tem lojas, mas não fábricas no Brasil], poderão expandir suas operações, abrindo lojas e quiosques em cidades menores”, diz Kanter.
Na avaliação do professor, pode haver algum barateamento pontual na categoria de chocolates semipremium, mas o preço não será o principal impacto para o consumidor.
“A grande diferença é o acesso. O consumidor pode passar a encontrar marcas premium de chocolates europeus que hoje não estão no Brasil”, afirma.
“A Godiva, por exemplo, já veio para o Brasil e depois saiu porque as condições econômicas não eram favoráveis. Trata-se de um produto premium, vendido em euro. Quando se faz a conversão para o real e ainda se soma um imposto de importação elevado, a operação deixa de ser viável”, diz.
Mas a chegada de novos produtos de alto padrão “não beneficia as classes B e C”, ressalta o professor.
“Marcas de primeira linha de chocolates não são vendidas por um preço baixo exclusivamente porque têm tarifas de importação reduzidas. Para elas, o preço é uma consequência do posicionamento de mercado”, diz.
“Quem vai se beneficiar é a classe A, que em vez de comprar chocolate na Fauchon [loja francesa de gastronomia de luxo], vai poder comprar no Iguatemi, em São Paulo”, diz Kanter.
“O preço de produtos importados de primeira linha nunca chegará ao nível de chocolates populares nacionais. Você não vai conseguir comprar uma uma caixinha de Godiva por R$ 7,90 nas Lojas Americanas. Isso não vai acontecer”, conclui o professor.

Fonte:

g1 > Agronegócios

Comentários do Facebook
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img